Quando saímos para
pedalar, dia após dia e todos os dias, todos os ciclistas assumem um certo
risco. Todos nós saímos de casa, em nossas bikes, com uma certeza: todos vamos
cair! Em vista à essa certeza, o que resta ao ciclista é saber quando vai
cair e torcer para que a queda seja o mais leve possível, para que não nos
arrebentemos e, se isso ocorrer (nos arrebentarmos), que nos recuperemos o mais
rápido possível, para continuar a pedalar. Vou classificar (por pura putaria e
só de sacanagem) os acidentes em que os ciclistas se envolvem em três grandes
categorias, sendo elas: (1) Imperícia/imprudência própria; (2) ‘Desastres
naturais’; e (3) Por envolvimento de terceiros. Vou explicar cada um deles. O
ciclista pode sofrer um acidente, e cair, por que ele se distraiu, errou um
“bonny hop” (ou qualquer outra manobra), perdeu o equilíbrio sozinho, abusou da
sorte e da habilidade, fez algo impensado e estúpido, ou fez qualquer lambança,
típicas (na maior parte) de iniciantes, e foi ao chão em razão da sua
imperícia/imprudência. O ciclista pode sofrer um acidente, e cair, por sucumbir
a um obstáculo como um buraco, uma pedra solta, um pouco de terra no asfalto,
água em poças fundas, terreno escorregadio, areia frouxa, galhos ou qualquer
coisa pelo seu caminho, qualquer coisa que se apresente de supetão ou de surpresa
(não depende dele) e, mesmo com toda a sua perícia, ele não consegue escapar (e
aí é ... chão!). Esses são os desastres naturais. E por último, o ciclista pode
sofrer um acidente, e cair, por intervenção de terceiros, quando esses
terceiros são carros e motos (motoristas) que os fecham, que abrem as portas,
que os atropelam, que os jogam para fora da pista, por outro ciclista fazendo
toda a sorte de lambanças, imprudências (ou correlatos) ou um ciclista que foi
vitima e um ‘desastre natural’ ou de um outro “terceiro”, que ao cair o leva
junto com ele. Como podem perceber, as categorias não são mutualmente
exclusivas, na verdade o mais fácil de ocorrer é um acidente ser provocado por
um conjunto de pelo menos duas delas, e vira e mexe temos uma convergência das
três classes provocando acidentes. Pois bem, hoje estava pedalando no asfalto,
a uma boa velocidade, focado no exercício, quando eis que surge uma vespa no
meu caminho. A desavisada vespa veio de encontro ao meu rosto e, se chocando
com o mesmo, deferiu uma picada medonha, mesmo no meio da minha testa. A
expressão em inglês que descreve a mira da vespa é “in bull’s eyes” e foi assim
que foi: no meio dos olhos. A dor se fez instantaneamente e, se não bastasse, a
maldita vespa ficou presa pelo seu ferrão, que se incrustou em minha testa.
Larguei uma das mãos do guidão da bike para tentar retirar a vespa de meu
rosto, neste momento me desequilibrei e, por puro instinto e reflexo, freei a
bike, apenas o suficiente para amenizar a queda, que a essa altura já era
inevitável. Ainda deu tempo para pensar, numa fração de segundo: “pronto, que
venha o chão!” E ele veio, em seus tons de cinza, marrom e verde. Para minha
sorte, cai em um arbusto esquisitamente fofinho que amorteceu a minha queda,
mas foram os óculos pra um lado, a bomba para o outro, a bike ficou pra trás, a
caramanhola foi rolando lá pra frente, mas a porra da vespa insistiu em
continuar encravada em minha testa. Na sequência, o que fiz foi: tirei a vespa
de mim, olhei rapidamente para trás (para a bike), olhei rapidamente para meu
corpo (pernas e braços), ri de mim mesmo, tirei uma foto do rosto (para ver o
estrago), ri novamente com a imagem (pensei essa vai pro Blog), apanhei a
caramanhola, joguei água gelada no rosto e comecei a juntar as coisas. Abro um
parêntese aqui para falar de algo que é normal e comum para todo ciclista,
quando caímos a primeira reação é olhar para a bike, ver como ela está, só
depois olhamos para o nosso corpo, para checar os estragos provocados pela
queda, e comumente sentimos mais pena dos arranhões sofridos por ela do que pelos
estão em nosso corpo. Voltando a narrativa, acho que posso classificar o evento
de hoje como um ‘desastre natural’. Certa vez, um animal já chegou a me
derrubar, foi um cachorro, que se meteu na frente da bike (de supetão) e me
levou ao chão, mas essa foi a primeira vez que um bicho alado me derruba da
bike. Fico pensando em qual será o próximo, será um urubu, uma gaivota (se for
próximo ao litoral), um morcego (se for um pedal noturno), esse último eu acho
improvável, mas sabe-se lá. Ficarei na expectativa em saber qual será o motivo
da próxima queda, mas como eu disse, que ela seja o mais suave possível e nos
arrebente (eu e a bike) o mínimo que for permitido. O curioso é que sempre os
pontos de contato do meu corpo com o chão, nessas minhas quedas animalescas,
podem ser descritos pela letra de uma canção infantil que meu filho sempre
escuta: “Cabeça, ombro joelho e pé”. Até mais. Ah, logo abaixo duas fotos: a da
agressora e da vítima.
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